Rastreio do aneurisma da aorta abdominal
O aneurisma da aorta abdominal (AAA) é uma dilatação da aorta com diâmetro ≥ 3,0 cm. A maioria é infrarrenal e assintomática até à rotura, que tem mortalidade muito elevada. O rastreio ecográfico reduz a mortalidade relacionada com AAA em homens.
Em Portugal não há um programa organizado de rastreio. O POCUS permite um rastreio oportunista, na própria consulta, em poucos minutos e com alta precisão em mãos treinadas.
| Grupo | Recomendação |
|---|---|
| Homens com 65 anos ou mais | Rastrear Uma ecografia (ESVS 2024). A USPSTF limita aos 65 a 75 anos que já fumaram |
| Familiares em 1.º grau de doentes com AAA | Considerar A partir dos 50 anos |
| Mulheres com 65 anos ou mais, fumadoras ou ex-fumadoras, ou com doença cardiovascular | Pode considerar-se Evidência limitada |
| Mulheres que nunca fumaram | Não rastrear |
| Esperança de vida curta ou sem condições para cirurgia | Não rastrear Não mudaria a conduta |
Técnica
- Sonda
- Convexa, 2 a 5 MHz, preset abdominal ou aorta. Linear em doentes magros.
- Doente
- Decúbito dorsal, joelhos fletidos para relaxar a parede. Jejum ajuda, mas não é obrigatório.
- Profundidade
- Até ver o corpo vertebral no fundo do ecrã (cerca de 15 a 20 cm).
- Orientação
- Transversal com marcador para a direita do doente: a aorta aparece à direita do ecrã, a VCI à esquerda.
- Comece abaixo do apêndice xifoide, em transversal. Encontre o corpo vertebral (arco brilhante com sombra) e, à frente dele, a aorta redonda, pulsátil, de parede espessa.
- Distinga da VCI: oval, à esquerda do ecrã, com paredes finas, colapsa com a pressão e varia com a respiração.
- Deslize para baixo sem perder a aorta, com pressão firme e progressiva para afastar o gás. Identifique o tronco celíaco e a AMS.
- Continue até à bifurcação, medindo o maior diâmetro anteroposterior no segmento infrarrenal.
- Rode 90° para longitudinal (marcador cranial) e confirme a dilatação e a sua extensão.
Gás intestinal: pressão mantida e paciente, janela lateral pelo flanco direito (em coronal, através do fígado) ou decúbito lateral esquerdo.
Como medir
Correto
- Parede externa a parede externa
- Plano perpendicular ao eixo da aorta
- Incluir o trombo mural
- Registar o maior diâmetro e o nível
Erros comuns
- Medir só o lúmen: subestima
- Corte oblíquo numa aorta tortuosa: sobrestima
- Confundir trombo com tecido periaórtico
- Medir a VCI ou uma ansa
| Estrutura | Normal |
|---|---|
| Aorta abdominal infrarrenal | Cerca de 2 cm; < 2,5 cm normal; 2,5 a 2,9 cm ectasia (subaneurismática) |
| Artérias ilíacas comuns | < 1,5 cm |
| AMS | Sai 1 a 2 cm abaixo do tronco celíaco e desce paralela à aorta |
Conduta segundo o diâmetro
| Diâmetro máximo | Classificação | Conduta |
|---|---|---|
| < 2,5 cm | Normal | Sem novo rastreio |
| 2,5 a 2,9 cm | Ectasia | Repetir ecografia em 5 anos |
| 3,0 a 3,9 cm | AAA pequeno | Ecografia a cada 3 anos |
| 4,0 a 4,9 cm | AAA médio | Ecografia anual. Mulheres ≥ 4,5 cm: referenciar a Cirurgia Vascular |
| 5,0 a 5,4 cm | AAA grande | Ecografia a cada 3 a 6 meses e referenciar a Cirurgia Vascular. Mulheres: limiar de reparação |
| ≥ 5,5 cm | Limiar de reparação (homens) | Referenciação prioritária a Cirurgia Vascular |
| Crescimento ≥ 1 cm por ano | Crescimento rápido | Referenciação prioritária, qualquer que seja o diâmetro |
| AAA com dor ou sensibilidade | Sintomático | Urgência hospitalar |
Intervalos segundo a ESVS 2024. O limiar de reparação nas mulheres é mais baixo porque o risco de rotura é maior para o mesmo diâmetro.
Em todos os doentes com AAA ou ectasia
- Cessação tabágica: o tabaco acelera o crescimento e aumenta o risco de rotura.
- Controlo da tensão arterial e dos restantes fatores de risco cardiovascular; o AAA é marcador de doença aterosclerótica.
- Explicar os sintomas de alarme: dor abdominal ou lombar súbita, desmaio.
- Registar diâmetro, nível e técnica, para comparar exames sucessivos.
Classificação e vigilância
Armadilhas frequentes
Aorta versus VCI
A aorta é redonda, pulsátil, de parede espessa, à direita do ecrã em transversal. A VCI é oval e colapsa com pressão.
Corte oblíquo
Numa aorta tortuosa, um corte oblíquo parece oval e sobrestima o diâmetro. Procure o menor eixo perpendicular.
Medir só o lúmen
O trombo mural pode ocupar grande parte do aneurisma. Meça sempre de parede externa a parede externa.
Parar cedo
A maioria dos AAA está entre as renais e a bifurcação, o segmento mais afetado pelo gás. Acompanhe a aorta até à bifurcação.
Gás intestinal
Pressão firme e mantida, janela pelo flanco direito ou decúbito lateral esquerdo. Um exame incompleto não é negativo.
Adenopatias e massas
Tecido à volta da aorta pode imitar trombo ou aneurisma. Siga a estrutura em longitudinal e use Doppler.
Aneurismas ilíacos
Podem existir com aorta normal. Avalie as ilíacas comuns logo abaixo da bifurcação.
Ecografia na suspeita de rotura
A ecografia não vê bem o hematoma retroperitoneal. Um AAA com clínica sugestiva é emergência, mesmo sem líquido visível.
Fontes
- Wanhainen A, Van Herzeele I, Bastos Goncalves F, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aorto-Iliac Artery Aneurysms. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024;67(2):192–331.
- US Preventive Services Task Force. Screening for abdominal aortic aneurysm: recommendation statement. JAMA. 2019;322(22):2211–2218.
- Chaikof EL, Dalman RL, Eskandari MK, et al. The Society for Vascular Surgery practice guidelines on the care of patients with an abdominal aortic aneurysm. J Vasc Surg. 2018;67(1):2–77.
- Rubano E, Mehta N, Caputo W, Paladino L, Sinert R. Systematic review: emergency department bedside ultrasonography for diagnosing suspected abdominal aortic aneurysm. Acad Emerg Med. 2013;20(2):128–138.
- Bornemann P (ed.). Ultrasound for Primary Care. Wolters Kluwer; 2021.
Imagens: esquemas originais, simplificados, sem escala exata.