Uma pergunta: a veia colapsa?
A ecografia de compressão avalia se as veias profundas proximais do membro inferior colapsam por completo com a pressão da sonda. Uma veia normal colapsa; uma veia com trombo não. Não é preciso Doppler.
- 2 pontos
- Veia femoral comum (incluindo a junção safeno-femoral) e veia poplítea. É o protocolo POCUS mais usado.
- 3 pontos
- Acrescenta a veia femoral na coxa. Aumenta ligeiramente a sensibilidade para trombos femorais isolados.
- Ecografia completa
- Todo o membro, incluindo veias da perna. É o exame formal, feito por Radiologia ou Angiologia.
Em mãos treinadas, a compressão proximal tem sensibilidade e especificidade acima de 90% para TVP proximal. Não avalia as veias da perna (TVP distal isolada).
Técnica
- Sonda
- Linear, 5 a 12 MHz, preset venoso ou vascular. Convexa em membros volumosos.
- Doente
- Decúbito dorsal, cabeceira elevada (as veias enchem), membro em rotação externa com o joelho ligeiramente fletido.
- Plano
- Sempre transversal para comprimir. Em longitudinal a sonda escorrega para fora da veia e dá falsos negativos.
- Orientação
- Marcador para a direita do doente. No membro direito, a artéria (lateral) fica à esquerda do ecrã e a veia (medial) à direita.
Sequência
- Na prega inguinal, encontre a artéria femoral comum (pulsátil) e a veia femoral comum medial a ela.
- Comprima até as paredes anterior e posterior da veia se tocarem. A artéria deve deformar-se ligeiramente: sinal de que a pressão é suficiente.
- Repita a cada 1 a 2 cm: junção com a veia grande safena, depois até a veia femoral comum se dividir.
- No protocolo de 3 pontos, repita na veia femoral a meio da coxa.
- Na fossa poplítea (joelho fletido, doente em decúbito lateral ou ventral), a veia está mais perto da sonda do que a artéria. Comprima até à trifurcação.
- Compare com o membro contralateral em caso de dúvida.
O que se vê ao comprimir
Interpretação
| Achado | Significado |
|---|---|
| Compressão completa em todos os pontos | Sem TVP proximal nos segmentos avaliados |
| Veia não compressível | TVP. Veia distendida e trombo pouco ecogénico sugerem trombo agudo |
| Compressão parcial | Trombo parcial ou antigo. Compare com exames prévios; referenciar para ecografia formal |
| Trombo ecogénico, veia retraída, paredes espessadas | Sugere trombose antiga ou síndrome pós-trombótica |
| Trombo na veia grande safena | Trombose venosa superficial. A menos de 3 cm da junção safeno-femoral: tratar como TVP |
| Exame incompleto ou tecnicamente difícil | Não é negativo. Ecografia formal |
Diagnósticos alternativos que o POCUS pode mostrar
- Quisto de Baker: coleção anecogénica na fossa poplítea medial, entre o gastrocnémio medial e o semimembranoso, em forma de vírgula. A rotura dá dor e edema da perna que imitam TVP. Os dois podem coexistir: comprima sempre a poplítea.
- Celulite: edema subcutâneo em “pedras da calçada”.
- Hematoma ou rotura muscular: coleção no músculo gemelar após esforço.
- Adenopatia inguinal: oval hipoecogénica com hilo ecogénico, não compressível, fora do trajeto da veia.
Registo
Exemplo: “POCUS venoso do membro inferior direito, compressão em 2 pontos (sonda linear). Veia femoral comum e poplítea totalmente compressíveis. Veias da perna não avaliadas. Wells 1, D-dímeros negativos: TVP proximal improvável.”
Score de Wells para TVP e decisão
Algoritmo baseado no NICE NG158 (Wells de 2 níveis). Adapte ao acesso local a D-dímeros e a ecografia formal. Grávidas, doentes já anticoagulados e suspeita de embolia pulmonar seguem percursos próprios.
Armadilhas frequentes
Pressão insuficiente
A veia só “parece” não colapsar. Comprima até a artéria se deformar.
Comprimir em longitudinal
A sonda escorrega da veia. Comprima sempre em transversal.
Saltar a junção e a bifurcação
Trombos começam muitas vezes em confluências. Comprima a cada 1 a 2 cm, não num único ponto.
Veia femoral duplicada
Variante frequente: pode haver uma veia normal e outra com trombo. Siga as duas.
Confundir veia com artéria
A artéria é redonda, pulsátil e de parede mais espessa. Na fossa poplítea, a veia é a mais superficial.
Adenopatia como trombo
Os gânglios inguinais são ovais, com hilo, e não seguem o trajeto venoso.
Trombo crónico
Pode ser parcialmente compressível e ecogénico. Sem exame prévio, é difícil datar: referenciar.
Veias da perna
O POCUS proximal não as avalia. Com D-dímeros positivos e exame negativo, repita ou peça exame completo.
Fontes
- National Institute for Health and Care Excellence. Venous thromboembolic diseases: diagnosis, management and thrombophilia testing (NG158). NICE; 2020, atualizado 2023.
- Lim W, Le Gal G, Bates SM, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: diagnosis of venous thromboembolism. Blood Adv. 2018;2(22):3226–3256.
- Wells PS, Anderson DR, Rodger M, et al. Evaluation of D-dimer in the diagnosis of suspected deep-vein thrombosis. N Engl J Med. 2003;349(13):1227–1235.
- Pomero F, Dentali F, Borretta V, et al. Accuracy of emergency physician-performed ultrasonography in the diagnosis of deep-vein thrombosis: a systematic review and meta-analysis. Thromb Haemost. 2013;109(1):137–145.
- Bornemann P (ed.). Ultrasound for Primary Care. Wolters Kluwer; 2021.
- Soni NJ, Arntfield R, Kory P. Point-of-Care Ultrasound. 2.ª ed. Elsevier; 2019.
Imagens: esquemas originais, simplificados, sem escala exata.